sábado, 3 de dezembro de 2011

A carta

Eu revi as palavras da carta. Uma a uma.  O seu adeus escrito com uma mão firme, não titubeou nem por um instante, a tinta não falhou e a caneta eternizou naquele papel já amassado de tão (re)lido, a palavra “adeus” .
O “fique bem e seja feliz” estavam escritos sem entusiasmo, sem a força do adeus, sem dor, sem pudor, estavam ali só por estar, para não parecer mal educado. Pelo menos foi o que veio à minha mente.

Repensei também em como a vida pode ser irônica: a pessoa que te diz para ficar bem e ser feliz é a mesma por quem seu mundo caiu. É a pessoa que te faz querer gritar e abraçar o mundo, correr a Terra inteira e fazer qualquer coisa só para poder tê-la mais uns minutinhos do seu lado. Olhar seus olhos pretos e dizer que está feliz por ela estar ali. E só.

Finalmente, dobrei a carta e a pus debaixo da xícara do café que estava tomando. Foi do calor do café que me veio a ideia do fogo, a ideia de queimar a carta. Peguei o isqueiro ao lado do fogão e brinquei com a chama. O isqueiro na mão direita e a carta na esquerda.

 Mas se eu queimar, quem vai me dizer as verdades que preciso ouvir? Quem me lembrará que não vou ter uma segunda vez, uma segunda chance? Se eu queimar,  como a ilusão não me abrigará? Se eu queimar esse papel, isso que chamo de carta, a ilusão com certeza virá. Como das outras vezes que apaguei da mente o que você disse tão sem palavras e tão cheio delas. Eu vi tudo, tudinho bem na minha frente: “eu não quero mais” e apaguei, esqueci e vivi mais um dia e mais um dia acreditando, tentando acreditar e mentindo pra mim mesma.

A carta é, portanto, a prova de que o fim é real. Do ponto final.

Ou melhor, a carta era. Mas o que eu não me lembro mais...depois do fogo, só me lembro da saudade...
Ilusão é questão de expectativa e perspectiva.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ela quis.

Ela quis sentir uma mão no ombro,
quis chorar em frente à alguém,
quis sorrir no fim do choro,
quis cantarolar o seu decoro.

Ela quis chamar e ser ouvida,
quis fugir, sair corrida,
quis dormir, sonhar,
acordar sem despedida.

Ela quis que tudo fosse o todo
o perfeito
o completo.
E que o todo fosse tudo.

domingo, 23 de outubro de 2011

Domingo de sem ninguém, só.

Ela olhou na direção do ralo do box esperando, concentrada, com toda atenção, que de lá surgisse uma barata. E esperou por 2 horas, que foi o tempo suficiente para perceber que não estava sozinha em seu apartamento. Bendisse o dia, não tomaria o café da manhã, sozinha, afinal. Nem interessava quem era, faria café para dois. Arrumou a cafeteira, ligou e esperou.
Ele/ela (intruso/intrusa), quem quer que fosse, esperou também. A cafeteira fez um sinal sonoro. Ela se levantou, ainda com seu roupão acinzentado, meio morto, arrastando os pés e apanhou duas xícaras. Xícaras de porcelana. Ah brindemos com café. Hoje é um grande dia!
Ela estava realmente feliz que fosse domingo. Estava feliz que isso fosse num domingo. Pena que não se preparara “adequadamente” para essa hora.
Serviu as duas xícaras sem ao menos olhar. Logo, derramou café quente sobre a mesa, sobre a toalha puída da mesa, aquela com desenhos de melancias, melancias fechadas, tiras de melancias. Mas ele nem nunca gostou daquela toalha mesmo. Foi um presente de quem não se sabe mais, para ninguém. Poderia dizer, sem prejuízo, que fora qualquer uma das inúmeras coisas achadas no lixo. Ninguém quer, então...
Nada para comer.
Depois de 2 minutos - a espera parecia infinita -  o café já se esfriara o suficiente para se tornar repulsivo. Amargo e repulsivo, como a ânsia da ressaca. Ela estava de ressaca da vida.
-Pode vir! Você quem quer que seja! Seja minha companhia esta manhã... – o silêncio fora finalmente rompido, mas a voz dela “manquejou” no fim da sentença, como a voz dos embriagados.
Um vulto percorreu o canto do seu olho direito e se pôs ao lado dela. Era a beleza na forma humana. Podia ler tudo nos olhos dela, ver tudo. O filme. O tão falado filme da sua vida antes da sua morte.
A beleza, a incógnita, a Morte, sentou-se ao lado dela e tomaram café juntas.

domingo, 16 de outubro de 2011

Lágrimas

Eu bebi as lágrimas.
Todas elas num único gole.
Esperei pelo sal.
Senti o amargo.
Depois o doce, mais doce do que nunca.
Não entendi o sentido.
Mas o gosto foi bom.
Que a felicidade escorra pelos meus olhos agora e eu beberei o cálice cheio.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cor

...E eu odiei com toda a força do meu amor, a falta de paz

a ausência de luz

e a dor.

E sem pudor,

desejei a morte,

puni-me, chorei.

Mas odiei a dor 

Ergui-me

Sorri à luz,

e sem pudor, entreguei-me à cor.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Shiiiiiu

- Shhhhhiu! Não fala nada!
Fica quieta agora!
Tá louca? 
Tá pensando que alguém vai te ouvir?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Belo céu de cinza dia

Belo céu de cinza dia!
Que belo céu cinza!
Chuva? Não me importo com ela, agora concentro-me no cinza.
Quis muitos amarelos, muitos alaranjados e até os vermelhos, mas agora basta-me contemplar o cinza.
Eu nunca o vejo à noite, no noturno ele é tão negro, por isso sua beleza, só pode ser apreciada em dias, dias de dia e não de noite, quando o amarelo se vai, o azul se esconde e tudo tem aquele tom nostálgico.
Aquele som de cinza que lembra, biscoitos com leite, que te fazem ver de novo, como um filme em flashes, a infância, desenhos animados na TV, enquanto você está envolto numa proteção de cobertor, calor e mãe.
Em belos dias cinzas, o verde também fica diferente. Acho que ele para. Para de se mover, só para se render ao cinza, e se este quiser, o verde se curva, se prostra, saudoso.
Eu não disse que o cinza é feliz, ou que me deixa feliz. Disse: é belo.
E o é, de fato. Há muita beleza em se remeter ao triste, pois as lembranças, as dores, os temores, as aflições, tudo que nos faz chorar e que nos faz sentir, nos lembra o quanto somos humanos e não há nada mais belo que "Ser humano".
Belo dia de céu cinza...
Belo céu de cinza dia...