Anita estava tão magoada; parecia que andava curvada com um punhal cravado no peito.
Se tirarmos o punhal ela sangra e morre. Se deixarmos, ela sente dor, anda curvada pelo resto do caminho, mas sobrevive e convive, e vive com aquela dorzinha incômoda, constante...
Então deixemos o punhal lá. Bem no meio do peito de Anita.
Eu queria que ela falasse. Eu queria poder traduzir em palavras o que eu via nela.
Eu perguntei então.
"Eu estou decepcionada. Tive muitas expectativas frustradas."
(Queria que ela falasse mais. Como pode, eu ali, sentada, com os cotovelos sobre os joelhos. Atenta voyeur do sofrimento alheio. Queria aquela dor desnuda. Queria entender... Intrigante como a dor dela me interessava.)
Silêncio.
1/4 de hora de silêncio eterno. Música ao fundo.
Agora a frustração dela parecia ter sido toda transferida para meus rins. E passei a imaginar a dor. Eu vi assim:
Tinha um barco à deriva e um timoneiro com barbas ruivas, totalmente ébrio. Manco. Gritava com todos à bordo. Não eram muitos, uns quatro, talvez. Um deles que esfregava o chão, levou um chute daquela perna de pau. Acorda seu vagabundo! Trabalhe! Ele era franzino. Um menino ainda. Cheio de sonhos, mas agora um frustrado lavador de chão. Sua barriga doía. Seu hálito fedia. Suas expectativas todas, todas quebradas como um jarro de barro lançado à gravidade. E agora nada mais importava. O timoneiro fazendo-se capitão. Todos mortos. Barco à deriva. Ainda não mortos. Mas em breve. Era uma certeza. Assim como o bêbado não tinha juízo sobre si, assim como não poderia fazer o barco se salvar, assim como não poderia evitar a tempestade que estava chegando, assim como.... assim como não poderia evitar que todos morressem.
Decepção por confiar, por acreditar que podia ter sido diferente. Que poderia haver glória de alguma maneira...
Silêncio ainda.
"Anita!" - gritei como num espasmo, depois de voltar à realidade como que numa epifania mal sucedida.
Eu vi sua dor, sua decepção. Eu te entendo...
Ela me abraçou. Esqueceu a mágoa, fez como que uma continência de mãos e trêmulas e disse: "vamos achar o capitão!"
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
à margem
Hoje eu conheci uma senhora com o sobrenome de Boa Morte e fiquei pensando "quando a morte seria boa?"
Ela não teve pais. Só mãe. Com o sobrenome Boa Morte também; e ela morreu jovem.
Perguntei para a senhora quem a criou.
- Minha avó, que também morreu cedo. - respondeu a senhora.
- E a senhora nunca se casou?
- Não. Para quê? Só vejo gente reclamando de seus casamentos.
Silêncio.
- A senhora mora onde?
- Cada dia num lugar.
- Agora a senhora mora com quem?
- Com dona Maria e o marido dela. Eles me deixam dormir lá.
Eu nem tive mais o que dizer. Mas me arrisquei:
- Tenha fé! Vai dar tudo certo.
Ela agradeceu:
- Fica com Deus, minha filha!
Abaixei a cabeça, agradeci e desejei que a morte não a encontrasse jamais ou que antes ela tivesse um lar, um filho ou um cachorro. Algo que fosse seu. Algo que ela deixasse ao mundo, alguma parte dela, para que alguém pelo menos saiba que ela viveu, que ela sofreu mas que sentiu e que alguém notou...
Ela não teve pais. Só mãe. Com o sobrenome Boa Morte também; e ela morreu jovem.
Perguntei para a senhora quem a criou.
- Minha avó, que também morreu cedo. - respondeu a senhora.
- E a senhora nunca se casou?
- Não. Para quê? Só vejo gente reclamando de seus casamentos.
Silêncio.
- A senhora mora onde?
- Cada dia num lugar.
- Agora a senhora mora com quem?
- Com dona Maria e o marido dela. Eles me deixam dormir lá.
Eu nem tive mais o que dizer. Mas me arrisquei:
- Tenha fé! Vai dar tudo certo.
Ela agradeceu:
- Fica com Deus, minha filha!
Abaixei a cabeça, agradeci e desejei que a morte não a encontrasse jamais ou que antes ela tivesse um lar, um filho ou um cachorro. Algo que fosse seu. Algo que ela deixasse ao mundo, alguma parte dela, para que alguém pelo menos saiba que ela viveu, que ela sofreu mas que sentiu e que alguém notou...
sábado, 14 de julho de 2012
Quero me fechar
Quero me fechar
Trancar minhas portas e janelas
Pra ninguém mais entrar
Pra ninguém mais me usar.
Mas eu sou usável...
porque minha vida é,
sempre tem sido
para os outros.
Outros, que são maus inquilinos.
Entram, bagunçam e vão embora.
Quero me fechar
Pra ninguém mais me usar.
Oh, se eu pudesse me amar mais...
Trancar minhas portas e janelas
Pra ninguém mais entrar
Pra ninguém mais me usar.
Mas eu sou usável...
porque minha vida é,
sempre tem sido
para os outros.
Outros, que são maus inquilinos.
Entram, bagunçam e vão embora.
Quero me fechar
Pra ninguém mais me usar.
Oh, se eu pudesse me amar mais...
sábado, 21 de abril de 2012
Se eu quero o muito
Se eu já tenho muito.
Se conseguir mais
do muito que tanto quero
E se o espaço é finito
Meu muito vai caber onde?
Se eu já tenho muito.
Se conseguir mais
do muito que tanto quero
E se o espaço é finito
Meu muito vai caber onde?
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quinta-feira, 19 de abril de 2012
Sol de todas as cores
Aaaah que clima felizinho e colorido!
Quantas frutas de cheiro doce, quanta árvore verdinha...
Aaaah se esse sol fosse meu todos os dias para sempre e sempre...
Mas que ele apenas brilhasse, iluminasse...colorisse!
Sem queimar ou arder, sem cansar, sem nostalgiar...só brilhar!
Hoje eu sou de todas as cores! Meu sol de todas as cores...
Quantas frutas de cheiro doce, quanta árvore verdinha...
Aaaah se esse sol fosse meu todos os dias para sempre e sempre...
Mas que ele apenas brilhasse, iluminasse...colorisse!
Sem queimar ou arder, sem cansar, sem nostalgiar...só brilhar!
Hoje eu sou de todas as cores! Meu sol de todas as cores...
quarta-feira, 28 de março de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Paz de mim
Aquele senso de "completude".
Aquela ânsia de ócio.
A paz mental.
Não é paixão.
É calma...
Solidão e só.
É o olhar no espelho
E se bastar
Com muito
de só VOCÊ.
Aquela ânsia de ócio.
A paz mental.
Não é paixão.
É calma...
Solidão e só.
É o olhar no espelho
E se bastar
Com muito
de só VOCÊ.
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sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Cor
...E eu odiei com toda a força do meu amor, a falta de paz
a ausência de luz
e a dor.
E sem pudor,
desejei a morte,
puni-me, chorei.
Mas odiei a dor
Ergui-me
Sorri à luz,
e sem pudor, entreguei-me à cor.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Se a esperança...
Se a esperança é a última a morrer,
Por que eu que me julgava tão esperançosa,
Tão sonhadora, já morri?
E haverá quem me acordará,
Me fará abrir os olhos para não morrer?
Se acenderes a luz da esperança quem me garantirá
Que ela não vai se apagar
Por um breve momento,
O momento de meu supiro final?
Talvez, se eu acreditasse, não morresse.
Por que eu que me julgava tão esperançosa,
Tão sonhadora, já morri?
E haverá quem me acordará,
Me fará abrir os olhos para não morrer?
Se acenderes a luz da esperança quem me garantirá
Que ela não vai se apagar
Por um breve momento,
O momento de meu supiro final?
Talvez, se eu acreditasse, não morresse.
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