sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A despedida

Eu tinha acabado de fechar a última mala quando você apareceu e  posicionou os pés perfeitamente no centro da soleira de mármore da porta.

Olhei incrédula, balancei a cabeça em vários nãos e balbuciei alguma ofensa que você nem ouviria. Era só pra mim. Só pra eu ouvir. Eu queria que parecesse razoável e lógico que aquele fosse o desfecho da nossa história.

Você tem as manias, eu tenho as dores, nós temos um ao outro e ao mesmo tempo somos tão sozinhos. 

Eu queria que alguém dissesse que estava tudo bem eu ir embora. Mas essa validação não veio. Eu comecei a raciocinar que era o melhor a ser feito, que aquela não era a história que eu tinha idealizado para mim.

Eu não sei quando foi que comecei a vê-lo como uma ameaça à minha existência e à minha felicidade e porque eu fazia questão que você soubesse que eu estava infeliz e que eu nem ao menos queria tentar.

A resposta que sempre me foi dada e que eu sempre dei era ir embora. Mas dessa vez, eu reparei que minhas malas não tinham ficado cheias e que fecharam muito facilmente. 

Olhei ao redor pelo quarto e percebi vários fragmentos de mim, ali. Uns visíveis. Outros não. A escova de cabelo em cima da penteadeira, com meus cabelos enrolados nela. O chinelo embaixo da cama. Uma camisola pendurada no cabideiro no canto do quarto. 

Além disso, tinha um cheiro. Pareceu com o meu cheiro, os meus perfumes, mas tinha uma coisa diferente. Tinha você. Aquele quarto tinha um cheiro de nós. Isso me torceu o peito e comecei a hesitar pela primeira vez.

Eu só andava em frente, nunca olhei pra trás. Mas agora alguma coisa me fez abaixar a cabeça e chorar. Vi que sua silhueta magra ainda permanecia junto à porta. Você não vai me dizer para ficar?

E as grandes expressões de drama e de afeto dos livros e filmes? Você não ia me oferecer nada disso? Não teria nenhuma negociação? Você não perguntou nada. Eu sentia que tinha tantas palavras engasgadas e tanta conversa inacabada entre nós. 

Lembra da vez em que estávamos jantando lá fora e você começou a me contar sobre quando seu pai te ensinou a encontrar suas estrelas favoritas no céu? Você brilhava muito. E eu te interrompi porque queria servir mais um prato de macarrão para mim e ficar escrolando qualquer coisa no celular.

Sua chama foi se apagando. Eu não podia ver na época. Foi só quando me distanciei um pouco mais de nós que eu consegui perceber que quanto mais longe eu ficava mais longe eu precisava ficar.

Seria um término indubitável. Eu raciocinei com coisas do tipo “não era pra ser”, “o destino não quis”. Mas no fundo, eu sempre soube, que eu não tentei. 

Ainda olhando para o chão, eu imagino se você está chorando também. Eu queria que estivesse. Eu tenho medo de olhar e ver que para você, tudo bem.

Você se aproxima, pega na minha mão. Tira a alça da mala do meu pulso. Suas mãos magras estão tão geladas. Ainda não olho para você. 

Nesse momento, você me dá um abraço, colocando minha cabeça no seu peito. Eu consigo ouvir seu coração batendo mas ele está em paz. 

Finalmente, você fala comigo:

“Todas as vezes que eu tive raiva de você, ou fiquei triste por algo no nosso relacionamento, eu pensava que você estava cansada, que estava passando por alguma coisa e que se eu não fizesse nenhum movimento brusco, eu conseguiria esquecer e te manter por perto. Mas eu sei que assim como eu, você é um universo inteiro. Eu nunca vou saber o que se passa dentro dessa sua cabecinha e nem você da minha. Mas… sabe o que a gente pode ter certeza mesmo sem conhecer os segredos mais profundos da outra pessoa?”

Eu enxugo o meu rosto na sua camiseta como uma criança levada. E digo que não sei.

Então, você diz:

“Nós sempre podemos ter certeza de como a outra pessoa nos faz sentir. Isso não mente jamais. Com você eu me sinto em paz para falar das estrelas e te entediar. Mesmo que você não queira falar sobre isso, era você a pessoa para quem eu queria contar. Isso é sobre mim.”

Foi nesse momento que eu percebi que eu não estava sendo justa com meus sentimentos e emoções. Eu não sabia quem eles eram. Quando eu senti paz, eu me assustei. Quando senti segurança, eu duvidei. Quando senti afeto, eu me afastei. Quando senti amor, eu quis ir embora. Eu precisava contemplar mais, reagir menos…

“Por que viver não segue o roteiro dos finais felizes dos filmes?”, eu te pergunto.

“Por que você fica em busca dos finais?”

“Posso ficar mais hoje aqui com você?”

“Pode.”


sábado, 13 de junho de 2026

Você sabe por que é belo?
São as cores, as formas, as texturas?
Eu não sei mas eu o anelo.

Não sei como, em palavras, explicar 
Sei o que o belo me faz sentir
Me traz afago no coração e sem perceber 
Estou, todo bobo, a sorrir.

Você sabe por que é belo?
É seu canto, sua dança, sua história?
Eu não sei mas eu o anelo.

Ora, afinal, estou aqui a me explicar…
Não é isso ou aquilo
É tudo isso e tudo aquilo
É maior, faz sentir, só me resta apreciar.


domingo, 10 de maio de 2026

Comecei a caminhar pra onde os vales e morros se encontram

Onde eles ficam verdes e com flores multicoloridas 

Queria ir até onde rio rebrilha a luz do sol com mais lux e espelhos.

Comecei a caminhada com esse belo destino em mente.

Mas até lá eu tenho que passar por um desse outono, todo marrom, de flores e folhas mortas.

E por aquele inv(f)erno todo cinza e frio, onde o que já está morto já se decompõe.

É mesmo necessário que a vida se alimente da morte? Que a primavera precise tanto do outono e do inverno para florescer?

Penso enquanto caminho:

“Por que será que me demoro tanto aqui nesse lugar onde nem sei onde estou?”



domingo, 19 de abril de 2026

Eu sabia que um dia,

Em breve

As palavras não seriam suficientes 

Então, a música ousaria eriçar os pelos do meu braço e torcer minhas entranhas

só para me fazer experimentar 

Emoções que nem sei nomear.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dança das folhas

O vento canta sua canção secreta

As gotas de chuva marcam o ritmo 

E as folhas, nos galhos titubeando, seguem a deixa e dançam belamente, para lá e para cá num compasso ensaiado

As folhas caídas no cascalho úmido tentam se erguer para acompanhar o balé delicado

Não há mais forças nas folhas secas, há quem diga que estão mortas

Eu só digo que estão cansadas

Pois pra mim nunca morrem

Elas conseguem dançar quando não há chuva

Eu mesma já vi o belo rodopio

Quando das folhas secas girando e girando

Enquanto o vento fazia da sua canção um assobio

Nessa música, sem marcação, sem compasso

Todas sem exceção 

As verdes, as amarelas, as secas

As por cair

Dançaram o mesmo passo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Reflexões de Cressida

Faz muito tempo que não vejo Cassu por aqui e nem por lugar nenhum para dizer a verdade.

Bogus morreu há 5 meses e ele não veio para o funeral. A alcateia está triste e dispersa. Parecem estar mais magros, famintos e ao mesmo tempo conformados. 

Eu achei que Bogus estivesse preparando Cassu para quando partisse. Todos acharam. Quando ele nomeou Clesus como líder , ninguém entendeu. Eu parei de acompanhar os acontecimentos. Perdi o interesse. Acho que só me interessei por Cassu, mesmo. E quando ele partiu e teve todo a cerimônia com Bogus e Clesus, me pareceu meio sem sentido ficar acompanhando.

Todos temos os nossos favoritos, não é mesmo, Amária?

Tenho tantas perguntas sem resposta... Se Cassu não voltar, acho que vou continuar sem saber. Vou voltar para minhas narrativas imaginárias onde tudo acontece do jeitinho que eu queria.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

 De vez em quando eu lembro a mim mesma que cinza também é uma cor.