quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Noites em claro

Todas as noites que passei em claro 

Acordada, esperando uma resposta, um sinal

Foram longas demais

O sol logo derreteria a lua e o negro se transformaria num rosa alaranjado quente 

Aguardei a mão que me puxaria para fora desse buraco escuro demais

E amanheceu.


Todas as noites que passei em claro

Acordada, pedindo ajuda, com minha alma queimando

Aterrorizada, me sentindo perdida

Andando em círculos e ouvindo uivos distantes

Esperei um tempo, esperei dois. Esperei mais.

E amanheceu.


Todas as noites que passei em claro na floresta úmida 

Com o cheiro de lama podre na sola das minhas botas

Petrificada aguardando um retorno incerto

De uma viagem que eu não queria ter feito.

Esperei por um salvador, que não veio

E amanheceu.


Todas as noites que passei em claro

Foram em algum momento o prelúdio que a dor e a escuridão iriam me alcançar 

Mais cedo ou mais tarde

E me obriguei a ouvir com meus dois ouvidos

E com minha intuição.

Foi mais uma inspiração longa demais.

E amanheceu.

 

Todas as noite que passei em claro, foram habitadas por monstros e medos, pedidos sem respostas.


Todas noites que passei em claro, passaram.

Não seria possível escrever tudo que eu sinto por você.

Mas prometo que continuarei tentando…

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Terapia

- Eu vou te falar uma coisa estranha sobre mim:

Eu sinto falta de conversar sobre o tempo, sobre a morte, sobre a vida, sobre mundos paralelos, sobre dinossauros, sobre utopias, sobre ideias.

Eu falo disso 1 vez por semana na terapia. Mas não é a mesma coisa. Sinto falta de dividir esse mundo que tá aqui dentro me dando tanta dor de cabeça.

- Eu entendo. E como você se sente sobre isso?


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Me diga: do que são feitos os seus dias?


Os meus dias são feitos de noites e penumbras muito escuras, 

Onde a minha sombra me abandona e não tenho como contar o tempo

As vielas por onde ando estão cheias de ranhuras


A única luz que encontro é tão intensa que me cega

escuto passos atrás de mim

o som me de deixa e a paz me carrega


Os meus despertares são elucidações

Fugas, buscas, batalhas duras

ou apenas ilusões?


De que são feitos os meus dias?

De uma eterna busca entre acordar e dormir

Me encontrar e me iludir.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 Mesmo com todas essas árvores ressequidas, o ipê floresceu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o seu tempo

Eu queria que o tempo parasse para te ouvir falar sobre o tempo.

Em como você não acredita nele e em como você vai ser eterna. Uma dança de palavras e gestos, com suas teorias sem um mínimo de sentido.

Você sempre está tão empolgada falando sobre o tempo, o que temos e o que não temos.

Que ideias terríveis, você tem! 

Mas não me parece ser um motivo para te interromper. 

Pode falar o quanto quiser, minha querida.

Depois vinham as coisas banais, sobre sua rotina na fazenda dos seus avós nas férias da escola, sobre seus amiguinhos que você não sabe se existiram mesmo ou se eram só da sua imaginação.

Será que um dia você vai se lembrar desse dia que eu te ouvi falando que nem uma metralhadora de palavras, pontuando cada parágrafo com revirar de olhos ou gargalhadas sinceras?

Teve momentos de reticências também, quando você apenas olhou através de mim para muito muito além e ficou em silêncio.

Esses foram os que mais me assustaram. Os momentos do seu silêncio.

Quando recomeçasse ia ser outra leva de histórias, teorias e viagens dentro da sua mente inocente, corajosa e cheia de vigor.

Você não acreditava no tempo, mas hoje te vejo em silêncio com 85 anos. Eu não queria ter que levar para junto de mim, sem antes te ouvir mais mil vezes. Eu flertei com esse momento. Pode falar, minha querida.

Você não emite mais as palavras sobre o tempo, nem sobre nada. Você não acreditava no tempo e viveu como se ele não existisse. E em mim você acreditava?

Eu cheguei, e agora você vai se silenciar para sempre. E mesmo assim, ainda será eterna. Vou te levar comigo agora.

Sem adeus, sem despedidas, somente silêncio e lágrimas.

Te levei e te contei sobre o seu tempo: ele foi lindo.

Silêncio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cressida x Cassu

- Bogus não viveu para ver a matilha sair daquele vale amaldiçoado. E nem você, Cassu.

Desde que você partiu, eu tenho te procurado muito. Sei que não é comum que corujas sejam amigas de lobos mas tenho uma identificação especial com você. Acredito que você também já percebeu isso.

- Cressida, eu nunca te pedi para me procurar. Acho que você não entendeu que eu queria me livras de Bogus, de você, de todos eles. Eu só queria um buraco para me aninhar e morrer. Eu disse milhares de vezes para o Bogus que eu não queria e nem iria ser líder de nada.

- Você disse muitas vezes isso para ele mesmo. 

- E em todas, fui invalidado. O que eu queria nunca teve valor. Eu nunca tive uma voz de verdade dentro daquela matilha.

- Eu não entendo.

- Muito menos eu! Aquele velho era louco...

- Eu não entendo é você! É você que eu não entendo.

- Não tem nada para entender. A vida seguindo o fluxo natural. Uma hora todos viramos comida de minhocas e formigas, o líder e o subordinado. Não faz diferença. 

- Vim apenas te contar que eles conseguiram. Sua mãe adotiva e seus irmãos, seus amigos e seus desafetos. Todos conseguiram sair do vale. Sem você e sem Bogus. Parece que você tem razão quando disse que não era tão especial assim.

- E-e-eu não achei que eles fossem conseguir juntos. Achei que só alguns sobreviveriam. Eu não queria vê-los sofrer.

- Por isso, partiu?

- Não sei. Eu fui embora porque não queria nada do que Bogus me impunha. Mas agora acho que eu só não queria mesmo era ver todo aquele sofrimento e carregar isso nas minhas costas. Eu sempre fui covarde.

- Você não ouviu Bogus, não me ouviu e nem tá se ouvindo agora. Acha que Bogus também não sentia medo? Exigiu mais coragem escolher um forasteiro como líder do que tudo mais que ele fez na vida e ainda assim, que garantias ele tinha de que você seria o líder que eles precisavam? 

- Eu o decepcionaria mais cedo ou mais tarde.

- Você decepcionou a todos. Mas o verdadeiro ciclo da vida é esse: decepcionar e ser decepcionado, ser amado no intervalo e aí sim, somente depois de ter provado os sabores e dissabores, os prazeres e as dores, ser comido pelas minhocas e pelas formigas.

- Que seja... Como me encontrou aqui?

- Eu te disse, estive procurando muito. A floresta é densa mas está menor a cada dia.

- Eu não vou voltar. 

- Não vim te buscar e nem pedir para voltar. Vim aqui só para ter essa conversa de velhos amigos com você, lobo e coruja, como nos velhos tempos. Quando você quiser, se um dia quiser, volte.

- E você ainda vai me amar até lá?

- Espero que sim.