segunda-feira, 21 de maio de 2018

O som familiar do molho de chaves, enquanto uma das chaves entrava e movia o ferrolho.
Eu queria abrir os olhos e não fingir que estava dormindo mas eu não resisti.
Assim que ele entrasse, eu olharia no relógio, rapidinho, que horas eram, sem que ele percebesse.
Mas ele não foi até a cozinha, ou até ao banheiro, ele veio até mim. Ele se deitou no chão, pertinho do sofá, onde eu estava e pegou na minha mão que estava caída do sofá.
Ele me deu um beijo na bochecha e disse que tudo ia ficar bem. E eu confiei.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Fluido

É como se se escorresse de dentro do seu coração e fosse para todo o seu corpo.
Não está mais no seu coração mas ainda faz parte de você.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Enquanto embalo minhas coisas em sacolas de supermercado, decidindo rapidamente quais roupas levar e quais deixar, o que amo e o que desamo, vou recitando na mente aquela música sobre largar tudo e fugir. A música faz tudo parecer tão romântico e belo e era nisso que eu pensava.
Ouvi passos do lado de fora da casa. Parei por um instante e tentei aguçar ainda mais a audição, tentar discernir o que era, se eu corria perigo. E eu sei que sim. Eu estava fugindo por minha vida, não era nada romântico, nem bonito deixar meu lar para trás. Esgueirei-me pela porta dos fundos, dei uma breve olhada. A “barra” estava limpa. Escutei a maçaneta da porta da frente girar bem devagar. Eu deveria correr para a rua, mas esperei.
As sacolas com meus pertences começaram a pesar. Cada milissegundo de tensão parecia que imputava mais uns quilos a cada sacola. Eu deveria correr. Eu sabia disso. Mas algo me prendia ali, próxima à porta dos fundos, já do lado de fora da casa. Eu podia ver a pequena passagem que antes era um portãozinho e agora pregado com algumas tábuas de madeira podre. Eu logo estaria “livre”. A música veio novamente à minha mente e me desconcentrei dos barulhos no interior da casa. Recobrei a atenção total, segurei a respiração, ouvi.
Os passos estavam na cozinha. Abria as gavetas de talheres, revirando tudo, os sons parecendo uma banda orquestrada. O que ele está procurando? Agora está na sala. Ligou a TV. Trocou de canal e estava no canal de compras. Um número era repetido junto das palavras “compre” e “ligue”. Não fez sentido pra mim. A curiosidade me consumia, junto com medo, tensão e desesperança.
Se ao menos eu soubesse porque tudo aquilo estava acontecendo, talvez o que viesse a seguir, ou até a minha própria morte fizessem mais sentido, talvez fosse como um daqueles mártires importantes, talvez fosse algo que valesse a pena saber.

[continua...]

domingo, 25 de dezembro de 2016

A vida é um círculo bem grande onde você dá muitas voltas. Às vezes seu círculo se intersecciona com outros, mas você continua nas suas voltas. Até a bateria acabar...

sábado, 24 de dezembro de 2016

O jogo

É um jogo bem complicado.
Mais que xadrez ou qualquer outro de estratégias que você tenha jogado.
Não tem nada a ver com o oculto, mas esconde algo.
O que se revela apenas no game over, porque você sempre perde.
Espere para ver ou abaixe o seu rei em rendição.
Melhor desistir. Não. Melhor tentar.
É um jogo bem complicado.
Mas não mais que o das minhas regras.
Melhor tentar. Não. Melhor desistir (?).

domingo, 27 de novembro de 2016

Saudades de Saudécia

Eu tive que admitir que tenho saudades de Saudécia.
Já não tenho mais noção de tempo e espaço. Não sei quanto tempo estou aqui confinada com esses extraterrestres bizarros, encapuzados.
Às vezes parecem dinossauros, outras parecem humanoides, mutantes, outras vezes são apenas plantas. Eles se movem diante de mim e me fazem lembrar o quanto sinto falta de Saudécia.
Eu governaria tudo aquilo. Saudécia... Meu pequeno pedaço de terra a ser explorado, ressequido, escravizado.
Por que eles não me mataram? Isso não me sai da cabeça.
Teria sido melhor...
Estão mexendo com minha cabeça aqui, minha mente não é mais minha. Eles sabem do que eu sei?
Tenho que tentar resistir. As forças estão escassas e as dores de cabeça aumentam.
Sinto uma pressão nascer no meio dos meus olhos. Como uma agulha fina penetrando meu crânio. Lá dentro ela se abre como um guarda-chuva e pá! Eu sinto bolhas e espumas. Minha cabeça está sob um peso de cinquenta quilos.
Todos os gritos são abafados por esse tipo de prisão hermética em que me encontro.
Me pergunto se os sanatórios seriam assim...
Flashes. Escuridão, luzes, luzes, luzes. Elas são muito claras!
Agora são os verdes começando a colorir a tela. Surge Saudécia bem na frente dos meus olhos.
Uma camponesa sentada sobre um tufo de feno. Ela é muito jovem mas está com um bebê nos braços. Parece cansada, mas feliz. Ela acena com a cabeça para outra que passa por ela, por um caminho na terra batida. Um cavalo relincha. Vejo a feira dos mercadores. Vejo carroças.
Pisco várias vezes, aquilo não era real. Vejo agora os arranha-céus. Minha casa, minha mansão cercada de pinheiros, cercas-vivas, e o mais moderno sistema de segurança. Eu estava protegida. E eu tinha luxo ali. Muito. Isso sim era Saudécia. Era ter tudo que me apraz. Eu era a dona. E em breve eu seria a governadora de tudo.
Isso também não era real.
O que estão fazendo comigo aqui? Preciso retornar à Saudécia! Eu não sou uma tirana. Eu preciso governá-los para o bem deles.
"Heeeeeeey! Suas bestas mutantes, seus lagartos nojentos! Me tirem daqui! Eu ordeno que me tirem daqui!" - grito em vão.
Saudécia é real, sei que é.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

De onde era aquela paz?
Era do riacho onde eu molhava apenas as pontas dos pés
Daquela árvore grande com formato de chapéu
Era das folhas secas e do farfalhar.

E dos insetos zumbindo
Do ouvir um pássaro ao longe
E um grilo mais perto
Era imaginar o caminho, indo.

De onde era aquela paz?
Era de consertar seus medos com histórias antes de dormir
Do trilho do trem abandonado, onde eu podia ler
Era da brisa que vinha do seu lar.

E de chegar em casa cantando
Deixar as sandálias na porta, ligar o rádio
A música favorita, que podia ser qualquer uma
Era imaginar o caminho, voltando.

De onde era aquela paz?
Era meu sorriso encontrando Deus.