- As palavras não precisam ser vomitadas assim. Por que você não digere antes e, depois fala tudo com calma?
- Eu não quero.
- Por que você se preocupa tanto em me conhecer, Cressida?
Eu já te disse que não tem nada aqui.
- Já tivemos essa conversa umas trinta vezes, Cassu… nem sempre é só sobre você, sabia? Tirar tempo para ficar com você, te conhecer, faz bem pra mim. É como você me faz sentir. Sua amizade importa pra mim…
- Ah… então, é um motivo meio egoísta, né?
- Não, não vejo assim. Acho que é porque me mantém curiosa e ativa.
- Hum… Mas você não vai ficar com aquela ladainha de que tenho voltar pro bando…?
- Vou ficar em silêncio.
- Você é a coruja mais estranha que eu já vi.
- E você é o lobo mais estranho que eu já vi.
- Ok, vamos almoçar. A comida tá esfriando.
Resolvi fazer um passeio pra dentro de mim
Algo bem breve, não posso me demorar aqui
É muito escuro e fico com medo do que posso encontrar
Mas tenho que ver com meus próprios olhos, se tudo ainda não desmoronou.
E, de tempos em tempo eu venho, observo e vou embora.
Não ouso mudar nada de lugar
Porque não vou me demorar.
Pronto. Já fiz a minha brevíssima inspeção.
Agora posso me concentrar no meu externo, na superfície; sabendo que no meu passeio para dentro de mim, as paredes ainda estão escoradas, e as lâmpadas mesmo fracas ainda piscam um restinho de eletricidade.
Todas as noites que passei em claro
Acordada, esperando uma resposta, um sinal
Foram longas demais
O sol logo derreteria a lua e o negro se transformaria num rosa alaranjado quente
Aguardei a mão que me puxaria para fora desse buraco escuro demais
E amanheceu.
Todas as noites que passei em claro
Acordada, pedindo ajuda, com minha alma queimando
Aterrorizada, me sentindo perdida
Andando em círculos e ouvindo uivos distantes
Esperei um tempo, esperei dois. Esperei mais.
E amanheceu.
Todas as noites que passei em claro na floresta úmida
Com o cheiro de lama podre na sola das minhas botas
Petrificada aguardando um retorno incerto
De uma viagem que eu não queria ter feito.
Esperei por um salvador, que não veio
E amanheceu.
Todas as noites que passei em claro
Foram em algum momento o prelúdio que a dor e a escuridão iriam me alcançar
Mais cedo ou mais tarde
E me obriguei a ouvir com meus dois ouvidos
E com minha intuição.
Foi mais uma inspiração longa demais.
E amanheceu.
Todas as noite que passei em claro, foram habitadas por monstros e medos, pedidos sem respostas.
Todas noites que passei em claro, passaram.
- Eu vou te falar uma coisa estranha sobre mim:
Eu sinto falta de conversar sobre o tempo, sobre a morte, sobre a vida, sobre mundos paralelos, sobre dinossauros, sobre utopias, sobre ideias.
Eu falo disso 1 vez por semana na terapia. Mas não é a mesma coisa. Sinto falta de dividir esse mundo que tá aqui dentro me dando tanta dor de cabeça.
- Eu entendo. E como você se sente sobre isso?