quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Interlúdio

No nosso "Para sempre..." temos vários "Nunca mais...".

Cressida (Monólogo de Coruja)

"Olhar para Cassu todos os dias e ver como aquele lobinho estava crescendo e que logo, ele, um estranho, um lobo outrora, renegado, um bastardo, seria um líder, escolhido por merecimento, fazia essa velha coruja aqui orgulhar-se. De certa forma, eu estava participando de algo grande, esplendoroso.
Eu, mesmo irônica, sarcástica, nunca fui indiferente. Corujas são sábias, todos bem sabem. E eu, assim como Cassu, sei tudo sobre sofrimento. Por isso, fico. Por isso, vou-me embora.

Pra Pasárgada."

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Obsessão

Ele disse que ela era louca, obsessiva (ou obcecada, a palavra perdeu-se em sua mente ligada em mil Volts.) Ela negando, balançava a cabeça como uma criança. "Não! Não! Eu amo você! Eu amo..." Quanto mais repetia, mais acreditava que não era uma doida varrida e sim uma mulher carinhosa, cuidadosa, que só o queria bem dele.
Ele, perplexo, deu-lhe um abraço que envolveu todo o pequeno corpo dela. Disse que estava tudo bem, que eles iam ficar bem e juntos para sempre. Ela fungou e deixou cair a faca em suas mãos.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Não me mate, bonequinha!

Quando tirei a última folha de papel de presente, toda amassada e rasgada que envolvia a bonequinha em seu leito de coma induzido, fitei-a pela primeira vez nos olhos.
Olhos vítreos. Olhos mortos. Mas tinha um sorriso nos lábios.
Foi ali que me perdi numa calma, numa serenidade. Acho que dormi por dias com olhos abertos e sorriso nos lábios. Semi-morta.
Invejei a bonequinha que dormia, enquanto absorvia o mundo e a mim. Era como sonhar indefinidamente.
E naquela epifania pagã, encontrei força descomunal e me livrei da bonequinha.
"Não me mate, bonequinha!". Joguei-a no lixo e acordei.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Gelo

Temo dizer que aquele gelo todo, aquela avalanche branca acabou com todo o verde que tínhamos aqui. Mas foi isso mesmo que aconteceu.
Quer dizer, não sei se foi. Euzinha, não vejo outra explicação. Então, pela dedução lógica e por eu ter sido a única sobrevivente, declaro pelo poder investido em mim por mim mesma, que foi o gelo.
O vítreo que se apossou das chamas de uma suposta cidade quente, de um suposto planeta aquecido globalmente, foi ele que paralisou tudo, pessoas, carros, cachorros, árvores. Congelou mares, rios e corações. E eu aqui, narro o fim do mundo. Foi só um monte, muito, muitíssimo gelo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A dor de Cressida (Diálogos de lobos - monólogo de Coruja)

Sempre que algum lobo ficava doente ou com algum ferimento que lhe rendia gemidos baixos ou pequenos gritos de dor, Cressida descia uns galhos; queria ficar mais próxima do sofredor.
Numa dessas noites em que a lua brilhava como um sol, ela se chegou perto para a contemplar a dor de um dos lobos. Um choro baixo, solitário. Não havia nenhum lobo consolando ou fortalecendo aquela alma canina. Cressida viu que era Cassu quem grunhia. Ela se compadeceu. Ela não podia se reconhecer ali, sentindo pena de um lobinho bobo. Ela vinha ouvir a dor e ela não costumava entrar em seu peito cheio de penas cinzentas. Ela era uma espectadora e não protagonista.
Porém, nessa noite doeu. Ela gemeu baixo. Algo perfurando seu peito.
"Vou chamar o exterminador de dores. Vai dar tudo certo. Aguente firme, Cassu." - encorajou a coruja. Voou para longe e Cassu adormeceu.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Embora ache o sofrimento proveitoso, devo ceder aqui um espaço para alguma alegria.
Sim, houve um júbilo e um suspiro, uma satisfação, um dever cumprido, uma vida compartilhada e lembranças que sempre me farão sorrir e dizer "puxa vida". E eu não vi nem a metade.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Puniu-me

Eu paguei o preço.
Fui punida.
Agora pago de novo e de novo.
E você me pune por algo que eu não fiz.
Ah meu Deus! Estou sendo punida de novo!
Já se foram o respeito próprio, a amizade mais querida, o abraço caloroso.
O que você tira de mim agora?
Sanidade.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Para sempre

Me inspira!
Se encha de mim.
Regurgite!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

So far away

O calor é sentido na pele, mas está tão distante. So far away. Receio que seja meu cérebro sinestésico me pregando peças.
E eu rezo para que chegue logo, para que me proteja, para que me envolva em seus braços. Mas onde está? Chego a visualizar como uma miragem para o sedento. So far away.
So far away from here, so far away from me.
Está tão longe, que agora, mesmo sentindo, estou convicta de que não existe. Inalcançável. Talvez naquele universo paralelo onde há pessoas felizes, jardins, crianças e sorvetes. Mas não estamos lá. Estamos so far away disso. Tão distantes da felicidade...
So far away...

sábado, 29 de março de 2014

Paixão e sopro

Ora se não foi um sopro...
Aquele sopro rápido e quente em uma de minhas orelhas. Todos os pelos do meu corpo se eriçaram.
Assim como veio, ele se foi. Não deixou rastro e nem pista de para onde foi. Só partiu.
E como ele tira o pó sobre o móvel e como é efêmero
Assim foi aquela paixão que de súbita morte morreu.
Com súbito sopro partiu. Sim, foi apenas um sopro.


Para a menina com lágrimas em odres:
A paixão é apenas um sopro.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Funcionária do mês

Todos os dias Maria batia o ponto às 8 horas da manhã.
Sentava à sua mesa extremamente bagunçada. Havia papeis, souvenirs de viagens que os colegas lhe traziam, papeis e plásticos, restos de comida. Havia também várias canetas que não escreviam e máquina que não datilografava.
Curioso, eram aquelas recomendações, certificados e a plaquinha de funcionária excelente que ela ostentava com tamanho orgulho na parede esquerda de sua sala minúscula. Ela colocara aquelas molduras de excelência bem à sua vista. Ela era a melhor.
Não havia dúvidas, Maria era a melhor no que fazia. Todos a agradeciam por seu trabalho, elogiavam e pediam conselhos.
Mas Maria não queria agradar à todos aqueles outros. Ela queria a graça de seu chefe. Isso Maria já tinha. Todos os dias, fazia horas extras e nos fins de semana lá estava ela, fazendo o melhor dos trabalhos, escutando, esperando, estando disponível. Funcionária do mês doze vezes por ano.
Maria era a melhor pessoa-objeto que eu já vi. Excelente e sempre usável.
Hoje seu chefe não veio, não pediu nada, não questionou nada, não apareceu.
Maria guardou todas as suas coisas em caixas de papel sulfite usadas:
- Vou mudar de emprego!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Zé pinga reclama da vida

- Não estampe essa felicidade, mostre dor. Seja genuíno. Está tudo uma bosta mesmo, não está?
- Não.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Buraco e dor

Tem um buraco enorme. Carne exposta. Vermelha e purgante. Mas vai sarar. Tem aquele remédio. Aquele você sabe qual.
Tempo?
Ou punhal?