sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Me diga: do que são feitos os seus dias?


Os meus dias são feitos de noites e penumbras muito escuras, 

Onde a minha sombra me abandona e não tenho como contar o tempo

As vielas por onde ando estão cheias de ranhuras


A única luz que encontro é tão intensa que me cega

escuto passos atrás de mim

o som me de deixa e a paz me carrega


Os meus despertares são elucidações

Fugas, buscas, batalhas duras

ou apenas ilusões?


De que são feitos os meus dias?

De uma eterna busca entre acordar e dormir

Me encontrar e me iludir.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 Mesmo com todas essas árvores ressequidas, o ipê floresceu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o seu tempo

Eu queria que o tempo parasse para te ouvir falar sobre o tempo.

Em como você não acredita nele e em como você vai ser eterna. Uma dança de palavras e gestos, com suas teorias sem um mínimo de sentido.

Você sempre está tão empolgada falando sobre o tempo, o que temos e o que não temos.

Que ideias terríveis, você tem! 

Mas não me parece ser um motivo para te interromper. 

Pode falar o quanto quiser, minha querida.

Depois vinham as coisas banais, sobre sua rotina na fazenda dos seus avós nas férias da escola, sobre seus amiguinhos que você não sabe se existiram mesmo ou se eram só da sua imaginação.

Será que um dia você vai se lembrar desse dia que eu te ouvi falando que nem uma metralhadora de palavras, pontuando cada parágrafo com revirar de olhos ou gargalhadas sinceras?

Teve momentos de reticências também, quando você apenas olhou através de mim para muito muito além e ficou em silêncio.

Esses foram os que mais me assustaram. Os momentos do seu silêncio.

Quando recomeçasse ia ser outra leva de histórias, teorias e viagens dentro da sua mente inocente, corajosa e cheia de vigor.

Você não acreditava no tempo, mas hoje te vejo em silêncio com 85 anos. Eu não queria ter que levar para junto de mim, sem antes te ouvir mais mil vezes. Eu flertei com esse momento. Pode falar, minha querida.

Você não emite mais as palavras sobre o tempo, nem sobre nada. Você não acreditava no tempo e viveu como se ele não existisse. E em mim você acreditava?

Eu cheguei, e agora você vai se silenciar para sempre. E mesmo assim, ainda será eterna. Vou te levar comigo agora.

Sem adeus, sem despedidas, somente silêncio e lágrimas.

Te levei e te contei sobre o seu tempo: ele foi lindo.

Silêncio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cressida x Cassu

- Bogus não viveu para ver a matilha sair daquele vale amaldiçoado. E nem você, Cassu.

Desde que você partiu, eu tenho te procurado muito. Sei que não é comum que corujas sejam amigas de lobos mas tenho uma identificação especial com você. Acredito que você também já percebeu isso.

- Cressida, eu nunca te pedi para me procurar. Acho que você não entendeu que eu queria me livras de Bogus, de você, de todos eles. Eu só queria um buraco para me aninhar e morrer. Eu disse milhares de vezes para o Bogus que eu não queria e nem iria ser líder de nada.

- Você disse muitas vezes isso para ele mesmo. 

- E em todas, fui invalidado. O que eu queria nunca teve valor. Eu nunca tive uma voz de verdade dentro daquela matilha.

- Eu não entendo.

- Muito menos eu! Aquele velho era louco...

- Eu não entendo é você! É você que eu não entendo.

- Não tem nada para entender. A vida seguindo o fluxo natural. Uma hora todos viramos comida de minhocas e formigas, o líder e o subordinado. Não faz diferença. 

- Vim apenas te contar que eles conseguiram. Sua mãe adotiva e seus irmãos, seus amigos e seus desafetos. Todos conseguiram sair do vale. Sem você e sem Bogus. Parece que você tem razão quando disse que não era tão especial assim.

- E-e-eu não achei que eles fossem conseguir juntos. Achei que só alguns sobreviveriam. Eu não queria vê-los sofrer.

- Por isso, partiu?

- Não sei. Eu fui embora porque não queria nada do que Bogus me impunha. Mas agora acho que eu só não queria mesmo era ver todo aquele sofrimento e carregar isso nas minhas costas. Eu sempre fui covarde.

- Você não ouviu Bogus, não me ouviu e nem tá se ouvindo agora. Acha que Bogus também não sentia medo? Exigiu mais coragem escolher um forasteiro como líder do que tudo mais que ele fez na vida e ainda assim, que garantias ele tinha de que você seria o líder que eles precisavam? 

- Eu o decepcionaria mais cedo ou mais tarde.

- Você decepcionou a todos. Mas o verdadeiro ciclo da vida é esse: decepcionar e ser decepcionado, ser amado no intervalo e aí sim, somente depois de ter provado os sabores e dissabores, os prazeres e as dores, ser comido pelas minhocas e pelas formigas.

- Que seja... Como me encontrou aqui?

- Eu te disse, estive procurando muito. A floresta é densa mas está menor a cada dia.

- Eu não vou voltar. 

- Não vim te buscar e nem pedir para voltar. Vim aqui só para ter essa conversa de velhos amigos com você, lobo e coruja, como nos velhos tempos. Quando você quiser, se um dia quiser, volte.

- E você ainda vai me amar até lá?

- Espero que sim.

O quarto de Rosália

Daria para encher a caçamba de um caminhão com todas as tralhas que tinha dentro daquele quarto.

Maria Rita chegou às 9h15 e nem precisou das chaves para abrir a casa de Rosália, a porta estava destrancada. “Não deve ser um bairro perigoso”, ela pensou.

A sua missão ali era apenas uma: lidar com o quarto.

Mas antes, uma breve visitação pelos outros cômodos da casa. Com certeza, Rosália não se importaria. Não se importaria com nada mais. Já fazia uma semana que o endereço atualizado dela era o cemitério municipal.

Maria Rita não foi ao velório e nem ao cortejo fúnebre que movimentou toda a pequena cidade. Uns foram chorando próximos ao caixão, outros estavam apenas seguindo uma “procissão” por mera formalidade, até política, eu diria. Quem da cidade não participasse poderia ser excluído das decisões da comunidade por causa de um pacto invisível que existia entre eles, de que os cidadãos desse minúsculo ponto do mapa mundi, deveriam se apoiar, se unir e blábláblá. Então, tinha quem estava realmente sofrendo por causa da morte da senhorinha quase centenária e tinha também os que estavam apenas dando volume ao movimento.

Quem chegasse ali naquele momento, talvez não conseguiria discernir se era um velório, uma festa, uma procissão ou um comício.

O fato é que nesse evento em todo mundo foi, Maria Rita não esteve lá. Ele não estava lá há muito tempo, para sermos justos. 

Ela tinha ido embora aos 18 anos e nunca mais tinha posto os pés nessa cidadela. Agora com 35 anos, chegava para receber sua herança. Não era a casa não. Era um quarto cheio de lixo.

O testamento não era muito elaborado. Só dizia que Maria Rita tinha que arrumar o quarto. Não era o quarto de dormir, era um quarto que ficava sempre fechado. Ela nunca tinha entrado lá em todo sua vidinha.

Passemos ao curto tour pela casa, antes do temido quarto. Ao entrar, Maria Rita já avistou a cadeira de balanço de madeira escura bem ao lado de uma mesa bem baixa, com uma xícara suja, o café grudado no fundo. Era ali que sua avó se sentava e o ranger da madeira velha ficava “nhec nheeec” em intervalos sincronizados. Era como o tique-taque do relógio mas mas com uma passagem temporal própria. Quanto tempo durava cada balançar? Tempo suficiente para Maria Rita se lembrar que todas as tardes, quando o cômodo ficava amarelado, a sua avó cantava algo doce mas bem baixinho e chorava muito discretamente.

Na sala não tinha TV, não tinha sofá. Tinha a cadeira de balanço, a mesinha e 3 bancos de madeira para as visitas. Nunca aparecia ninguém.

No cômodo seguinte, divido apenas por um arco na arquitetura da parede, havia uma mesa de jantar para 8 pessoas, um bufê com um espelho escurecido acima e uma cristaleira com várias taças antigas. Nada muito requintado, mas pareciam ser bem frágeis.

A cozinha tinha um cheiro estranho. Maria Rita não soube identificar mas parece que já estava com cheiro de morte. Nessa hora ela sentiu um arrepio na espinha e quis ir embora logo. 

Finalmente, com a chave bem apertada nas mãos, ela abriu o quarto da herança. 

Tinha muito lixo. Papéis velhos, revistas empilhadas, brinquedos antigos. Os brinquedos não eram de Maria Rita.

A ideia era somente pegar tudo e jogar fora. Mas tinha alguma história ali a ser contada que fez com que Maria resolvesse gastar mais tempo ali, organizando e tentando entender o quarto, a sua vida com a sua avó e a sua volta pra casa. Ela não pretendia ficar. Só precisava do tempo para descansar um pouco e consertar o que estava quebrado.


Continua…

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A despedida

Eu tinha acabado de fechar a última mala quando você apareceu e  posicionou os pés perfeitamente no centro da soleira de mármore da porta.

Olhei incrédula, balancei a cabeça em vários nãos e balbuciei alguma ofensa que você nem ouviria. Era só pra mim. Só pra eu ouvir. Eu queria que parecesse razoável e lógico que aquele fosse o desfecho da nossa história.

Você tem as manias, eu tenho as dores, nós temos um ao outro e ao mesmo tempo somos tão sozinhos. 

Eu queria que alguém dissesse que estava tudo bem eu ir embora. Mas essa validação não veio. Eu comecei a raciocinar que era o melhor a ser feito, que aquela não era a história que eu tinha idealizado para mim.

Eu não sei quando foi que comecei a vê-lo como uma ameaça à minha existência e à minha felicidade e porque eu fazia questão que você soubesse que eu estava infeliz e que eu nem ao menos queria tentar.

A resposta que sempre me foi dada e que eu sempre dei era ir embora. Mas dessa vez, eu reparei que minhas malas não tinham ficado cheias e que fecharam muito facilmente. 

Olhei ao redor pelo quarto e percebi vários fragmentos de mim, ali. Uns visíveis. Outros não. A escova de cabelo em cima da penteadeira, com meus cabelos enrolados nela. O chinelo embaixo da cama. Uma camisola pendurada no cabideiro no canto do quarto. 

Além disso, tinha um cheiro. Pareceu com o meu cheiro, os meus perfumes, mas tinha uma coisa diferente. Tinha você. Aquele quarto tinha um cheiro de nós. Isso me torceu o peito e comecei a hesitar pela primeira vez.

Eu só andava em frente, nunca olhei pra trás. Mas agora alguma coisa me fez abaixar a cabeça e chorar. Vi que sua silhueta magra ainda permanecia junto à porta. Você não vai me dizer para ficar?

E as grandes expressões de drama e de afeto dos livros e filmes? Você não ia me oferecer nada disso? Não teria nenhuma negociação? Você não perguntou nada. Eu sentia que tinha tantas palavras engasgadas e tanta conversa inacabada entre nós. 

Lembra da vez em que estávamos jantando lá fora e você começou a me contar sobre quando seu pai te ensinou a encontrar suas estrelas favoritas no céu? Você brilhava muito. E eu te interrompi porque queria servir mais um prato de macarrão para mim e ficar escrolando qualquer coisa no celular.

Sua chama foi se apagando. Eu não podia ver na época. Foi só quando me distanciei um pouco mais de nós que eu consegui perceber que quanto mais longe eu ficava mais longe eu precisava ficar.

Seria um término indubitável. Eu raciocinei com coisas do tipo “não era pra ser”, “o destino não quis”. Mas no fundo, eu sempre soube, que eu não tentei. 

Ainda olhando para o chão, eu imagino se você está chorando também. Eu queria que estivesse. Eu tenho medo de olhar e ver que para você, tudo bem.

Você se aproxima, pega na minha mão. Tira a alça da mala do meu pulso. Suas mãos magras estão tão geladas. Ainda não olho para você. 

Nesse momento, você me dá um abraço, colocando minha cabeça no seu peito. Eu consigo ouvir seu coração batendo mas ele está em paz. 

Finalmente, você fala comigo:

“Todas as vezes que eu tive raiva de você, ou fiquei triste por algo no nosso relacionamento, eu pensava que você estava cansada, que estava passando por alguma coisa e que se eu não fizesse nenhum movimento brusco, eu conseguiria esquecer e te manter por perto. Mas eu sei que assim como eu, você é um universo inteiro. Eu nunca vou saber o que se passa dentro dessa sua cabecinha e nem você da minha. Mas… sabe o que a gente pode ter certeza mesmo sem conhecer os segredos mais profundos da outra pessoa?”

Eu enxugo o meu rosto na sua camiseta como uma criança levada. E digo que não sei.

Então, você diz:

“Nós sempre podemos ter certeza de como a outra pessoa nos faz sentir. Isso não mente jamais. Com você eu me sinto em paz para falar das estrelas e te entediar. Mesmo que você não queira falar sobre isso, era você a pessoa para quem eu queria contar. Isso é sobre mim.”

Foi nesse momento que eu percebi que eu não estava sendo justa com meus sentimentos e emoções. Eu não sabia quem eles eram. Quando eu senti paz, eu me assustei. Quando senti segurança, eu duvidei. Quando senti afeto, eu me afastei. Quando senti amor, eu quis ir embora. Eu precisava contemplar mais, reagir menos…

“Por que viver não segue o roteiro dos finais felizes dos filmes?”, eu te pergunto.

“Por que você fica em busca dos finais?”

“Posso ficar mais hoje aqui com você?”

“Pode.”


sábado, 13 de junho de 2026

Você sabe por que é belo?
São as cores, as formas, as texturas?
Eu não sei mas eu o anelo.

Não sei como, em palavras, explicar 
Sei o que o belo me faz sentir
Me traz afago no coração e sem perceber 
Estou, todo bobo, a sorrir.

Você sabe por que é belo?
É seu canto, sua dança, sua história?
Eu não sei mas eu o anelo.

Ora, afinal, estou aqui a me explicar…
Não é isso ou aquilo
É tudo isso e tudo aquilo
É maior, faz sentir, só me resta apreciar.


domingo, 10 de maio de 2026

Comecei a caminhar pra onde os vales e morros se encontram

Onde eles ficam verdes e com flores multicoloridas 

Queria ir até onde rio rebrilha a luz do sol com mais lux e espelhos.

Comecei a caminhada com esse belo destino em mente.

Mas até lá eu tenho que passar por um desse outono, todo marrom, de flores e folhas mortas.

E por aquele inv(f)erno todo cinza e frio, onde o que já está morto já se decompõe.

É mesmo necessário que a vida se alimente da morte? Que a primavera precise tanto do outono e do inverno para florescer?

Penso enquanto caminho:

“Por que será que me demoro tanto aqui nesse lugar onde nem sei onde estou?”



domingo, 19 de abril de 2026

Eu sabia que um dia,

Em breve

As palavras não seriam suficientes 

Então, a música ousaria eriçar os pelos do meu braço e torcer minhas entranhas

só para me fazer experimentar 

Emoções que nem sei nomear.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dança das folhas

O vento canta sua canção secreta

As gotas de chuva marcam o ritmo 

E as folhas, nos galhos titubeando, seguem a deixa e dançam belamente, para lá e para cá num compasso ensaiado

As folhas caídas no cascalho úmido tentam se erguer para acompanhar o balé delicado

Não há mais forças nas folhas secas, há quem diga que estão mortas

Eu só digo que estão cansadas

Pois pra mim nunca morrem

Elas conseguem dançar quando não há chuva

Eu mesma já vi o belo rodopio

Quando das folhas secas girando e girando

Enquanto o vento fazia da sua canção um assobio

Nessa música, sem marcação, sem compasso

Todas sem exceção 

As verdes, as amarelas, as secas

As por cair

Dançaram o mesmo passo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Reflexões de Cressida

Faz muito tempo que não vejo Cassu por aqui e nem por lugar nenhum para dizer a verdade.

Bogus morreu há 5 meses e ele não veio para o funeral. A alcateia está triste e dispersa. Parecem estar mais magros, famintos e ao mesmo tempo conformados. 

Eu achei que Bogus estivesse preparando Cassu para quando partisse. Todos acharam. Quando ele nomeou Clesus como líder , ninguém entendeu. Eu parei de acompanhar os acontecimentos. Perdi o interesse. Acho que só me interessei por Cassu, mesmo. E quando ele partiu e teve todo a cerimônia com Bogus e Clesus, me pareceu meio sem sentido ficar acompanhando.

Todos temos os nossos favoritos, não é mesmo, Amária?

Tenho tantas perguntas sem resposta... Se Cassu não voltar, acho que vou continuar sem saber. Vou voltar para minhas narrativas imaginárias onde tudo acontece do jeitinho que eu queria.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

 De vez em quando eu lembro a mim mesma que cinza também é uma cor.