segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o seu tempo

Eu queria que o tempo parasse para te ouvir falar sobre o tempo.

Em como você não acredita nele e em como você vai ser eterna. Uma dança de palavras e gestos, com suas teorias sem um mínimo de sentido.

Você sempre está tão empolgada falando sobre o tempo, o que temos e o que não temos.

Que ideias terríveis, você tem! 

Mas não me parece ser um motivo para te interromper. 

Pode falar o quanto quiser, minha querida.

Depois vinham as coisas banais, sobre sua rotina na fazenda dos seus avós nas férias da escola, sobre seus amiguinhos que você não sabe se existiram mesmo ou se eram só da sua imaginação.

Será que um dia você vai se lembrar desse dia que eu te ouvi falando que nem uma metralhadora de palavras, pontuando cada parágrafo com revirar de olhos ou gargalhadas sinceras?

Teve momentos de reticências também, quando você apenas olhou através de mim para muito muito além e ficou em silêncio.

Esses foram os que mais me assustaram. Os momentos do seu silêncio.

Quando recomeçasse ia ser outra leva de histórias, teorias e viagens dentro da sua mente inocente, corajosa e cheia de vigor.

Você não acreditava no tempo, mas hoje te vejo em silêncio com 85 anos. Eu não queria ter que levar para junto de mim, sem antes te ouvir mais mil vezes. Eu flertei com esse momento. Pode falar, minha querida.

Você não emite mais as palavras sobre o tempo, nem sobre nada. Você não acreditava no tempo e viveu como se ele não existisse. E em mim você acreditava?

Eu cheguei, e agora você vai se silenciar para sempre. E mesmo assim, ainda será eterna. Vou te levar comigo agora.

Sem adeus, sem despedidas, somente silêncio e lágrimas.

Te levei e te contei sobre o seu tempo: ele foi lindo.

Silêncio.

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