quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O quarto de Rosália

Daria para encher a caçamba de um caminhão com todas as tralhas que tinha dentro daquele quarto.

Maria Rita chegou às 9h15 e nem precisou das chaves para abrir a casa de Rosália, a porta estava destrancada. “Não deve ser um bairro perigoso”, ela pensou.

A sua missão ali era apenas uma: lidar com o quarto.

Mas antes, uma breve visitação pelos outros cômodos da casa. Com certeza, Rosália não se importaria. Não se importaria com nada mais. Já fazia uma semana que o endereço atualizado dela era o cemitério municipal.

Maria Rita não foi ao velório e nem ao cortejo fúnebre que movimentou toda a pequena cidade. Uns foram chorando próximos ao caixão, outros estavam apenas seguindo uma “procissão” por mera formalidade, até política, eu diria. Quem da cidade não participasse poderia ser excluído das decisões da comunidade por causa de um pacto invisível que existia entre eles, de que os cidadãos desse minúsculo ponto do mapa mundi, deveriam se apoiar, se unir e blábláblá. Então, tinha quem estava realmente sofrendo por causa da morte da senhorinha quase centenária e tinha também os que estavam apenas dando volume ao movimento.

Quem chegasse ali naquele momento, talvez não conseguiria discernir se era um velório, uma festa, uma procissão ou um comício.

O fato é que nesse evento em todo mundo foi, Maria Rita não esteve lá. Ele não estava lá há muito tempo, para sermos justos. 

Ela tinha ido embora aos 18 anos e nunca mais tinha posto os pés nessa cidadela. Agora com 35 anos, chegava para receber sua herança. Não era a casa não. Era um quarto cheio de lixo.

O testamento não era muito elaborado. Só dizia que Maria Rita tinha que arrumar o quarto. Não era o quarto de dormir, era um quarto que ficava sempre fechado. Ela nunca tinha entrado lá em todo sua vidinha.

Passemos ao curto tour pela casa, antes do temido quarto. Ao entrar, Maria Rita já avistou a cadeira de balanço de madeira escura bem ao lado de uma mesa bem baixa, com uma xícara suja, o café grudado no fundo. Era ali que sua avó se sentava e o ranger da madeira velha ficava “nhec nheeec” em intervalos sincronizados. Era como o tique-taque do relógio mas mas com uma passagem temporal própria. Quanto tempo durava cada balançar? Tempo suficiente para Maria Rita se lembrar que todas as tardes, quando o cômodo ficava amarelado, a sua avó cantava algo doce mas bem baixinho e chorava muito discretamente.

Na sala não tinha TV, não tinha sofá. Tinha a cadeira de balanço, a mesinha e 3 bancos de madeira para as visitas. Nunca aparecia ninguém.

No cômodo seguinte, divido apenas por um arco na arquitetura da parede, havia uma mesa de jantar para 8 pessoas, um bufê com um espelho escurecido acima e uma cristaleira com várias taças antigas. Nada muito requintado, mas pareciam ser bem frágeis.

A cozinha tinha um cheiro estranho. Maria Rita não soube identificar mas parece que já estava com cheiro de morte. Nessa hora ela sentiu um arrepio na espinha e quis ir embora logo. 

Finalmente, com a chave bem apertada nas mãos, ela abriu o quarto da herança. 

Tinha muito lixo. Papéis velhos, revistas empilhadas, brinquedos antigos. Os brinquedos não eram de Maria Rita.

A ideia era somente pegar tudo e jogar fora. Mas tinha alguma história ali a ser contada que fez com que Maria resolvesse gastar mais tempo ali, organizando e tentando entender o quarto, a sua vida com a sua avó e a sua volta pra casa. Ela não pretendia ficar. Só precisava do tempo para descansar um pouco e consertar o que estava quebrado.


Continua…

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