quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O tempo é tão injusto quando estamos sofrendo.

Na dor, ele se demora mais.

Qual o mês mais longo do ano?

Aquele em que eu te perdi.

Eu parei e esperei.

Você seguia logo atrás e não me viu, passou direto por mim.

Então, comecei eu a te seguir, bem quietinho, quase invisível.

Tudo que eu tenho para te oferecer é amor.

Você consegue me ver?

Eu sempre estive aqui por você.

Agora eu sinto que o seu coração está tão pesado, querida.

Divide essa carga comigo?

Imóvel, assisto você chorando.

Você se sentou no chão e começou a se embolar como um casulo.

Eu queria te falar umas palavras.

Você quer ouvir?

Sussurro assim mesmo, desde esse beco escuro e gosmento do qual te observo como um gatuno prestes a cometer um crime.

Eu tenho muito amor para você. Eu sempre te amei.

Você aceita?

Você não me viu…

domingo, 25 de outubro de 2026

Queria que o vento se demorasse para que eu pudesse sentir o cheiro dos seus cabelos…

Queria que a onda nunca se quebrasse para que eu pudesse ver seu rosto na água…

Queria que o sol nunca se pusesse para que eu pudesse ver sua silhueta na sombra perfeita…

Queria que a terra nunca girasse para que eu pudesse te ter neste instante para sempre…

sábado, 24 de outubro de 2026

 Foi nos lugares mais escuros que eu aprendi a enxergar sem ver.

Queria tanto eu ouvir sua voz outra vez e, 

ouvi mesmo por uma última vez, 

me pedindo ajuda…

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Corredor final

- Uma última refeição lhe será servida! - diz o algoz

- Não quero nada, obrigada. - respondo

- Faz parte do protocolo para que a sua morte seja com mais dignidade e respeito.

- Não tem nada de digno acontecendo aqui!

- Você foi julgada, sua sentença foi estabelecida legalmente.

- Por quem? Meus olhos estavam fechados e minha boca calada. Ouvi murmúrios e não pude me defender. Meu coração batia tão forte que poderia ser traduzido em palavras. Qual foi meu crime?

- Saiba que não preciso e nem vou falar disso agora com você. Só queria saber o que você quer comer no jantar.

- Pode me dar absinto?

- Não.

- Um prato de macarrão preparado pela minha avó, é possível?

- Tudo bem. Onde eu a encontro?

- Cemitério da Misericórdia.

- Que deboche! Então, passe fome. Ingrata! Estou aqui te oferecendo uma oportunidade para comer o que quiser e você me vem com essa… 

- Qual o seu problema? Estou sendo ingrata porque você está me oferencendo um prato de comida antes de me matar?

- Não é qualquer comida. Você poderia escolher e eu traria pra você. Mas você não tem consideração.

- Eu já me cansei. Pode me matar agora mesmo!

- Calma! Já escolheu o que vai querer jantar?

- Você não me ouviu. Não quero.

- Eu preciso que você queira e sua morte vai pesar menos para mim e eu poderei ir jantar tranquilo com minhas filhas e minha esposa.

- Não quero.

- Eu tentei! Vocês viram, hein? Pode executar. Será que demora muito? Já está quase na hora de eu bater meu ponto…

- Me concede uma última palavra?

- Tá bem, vai! Fala.

 - Obrigada por me fazer enxergar o quanto eu já estava me matando, quando me calei, quando me resignei, quando fechei os olhos para mim. Só agora, tão perto da morte, é que percebo o quanto eu queria viver. Eu não sou ingrata, eu sou apenas alguém desesperada que percebeu que não tem saída e que um prato da mais deliciosa comida não vai fazer diferença.

- Ah sim, ok.



Enquanto de um lado alguém está morrendo, do outro lado tem alguém seguindo protocolo e nadando em indiferença.