- Uma última refeição lhe será servida! - diz o algoz
- Não quero nada, obrigada. - respondo
- Faz parte do protocolo para que a sua morte seja com mais dignidade e respeito.
- Não tem nada de digno acontecendo aqui!
- Você foi julgada, sua sentença foi estabelecida legalmente.
- Por quem? Meus olhos estavam fechados e minha boca calada. Ouvi murmúrios e não pude me defender. Meu coração batia tão forte que poderia ser traduzido em palavras. Qual foi meu crime?
- Saiba que não preciso e nem vou falar disso agora com você. Só queria saber o que você quer comer no jantar.
- Pode me dar absinto?
- Não.
- Um prato de macarrão preparado pela minha avó, é possível?
- Tudo bem. Onde eu a encontro?
- Cemitério da Misericórdia.
- Que deboche! Então, passe fome. Ingrata! Estou aqui te oferecendo uma oportunidade para comer o que quiser e você me vem com essa…
- Qual o seu problema? Estou sendo ingrata porque você está me oferencendo um prato de comida antes de me matar?
- Não é qualquer comida. Você poderia escolher e eu traria pra você. Mas você não tem consideração.
- Eu já me cansei. Pode me matar agora mesmo!
- Calma! Já escolheu o que vai querer jantar?
- Você não me ouviu. Não quero.
- Eu preciso que você queira e sua morte vai pesar menos para mim e eu poderei ir jantar tranquilo com minhas filhas e minha esposa.
- Não quero.
- Eu tentei! Vocês viram, hein? Pode executar. Será que demora muito? Já está quase na hora de eu bater meu ponto…
- Me concede uma última palavra?
- Tá bem, vai! Fala.
- Obrigada por me fazer enxergar o quanto eu já estava me matando, quando me calei, quando me resignei, quando fechei os olhos para mim. Só agora, tão perto da morte, é que percebo o quanto eu queria viver. Eu não sou ingrata, eu sou apenas alguém desesperada que percebeu que não tem saída e que um prato da mais deliciosa comida não vai fazer diferença.
- Ah sim, ok.
Enquanto de um lado alguém está morrendo, do outro lado tem alguém seguindo protocolo e nadando em indiferença.


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