quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 Não dá pra culpar a chuva por você continuar molhado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O tempo é tão injusto quando estamos sofrendo.

Na dor, ele se demora mais.

Qual o mês mais longo do ano?

Aquele em que eu te perdi.

Eu parei e esperei.

Você seguia logo atrás e não me viu, passou direto por mim.

Então, comecei eu a te seguir, bem quietinho, quase invisível.

Tudo que eu tenho para te oferecer é amor.

Você consegue me ver?

Eu sempre estive aqui por você.

Agora eu sinto que o seu coração está tão pesado, querida.

Divide essa carga comigo?

Imóvel, assisto você chorando.

Você se sentou no chão e começou a se embolar como um casulo.

Eu queria te falar umas palavras.

Você quer ouvir?

Sussurro assim mesmo, desde esse beco escuro e gosmento do qual te observo como um gatuno prestes a cometer um crime.

Eu tenho muito amor para você. Eu sempre te amei.

Você aceita?

Você não me viu…

domingo, 25 de outubro de 2026

Queria que o vento se demorasse para que eu pudesse sentir o cheiro dos seus cabelos…

Queria que a onda nunca se quebrasse para que eu pudesse ver seu rosto na água…

Queria que o sol nunca se pusesse para que eu pudesse ver sua silhueta na sombra perfeita…

Queria que a terra nunca girasse para que eu pudesse te ter neste instante para sempre…

sábado, 24 de outubro de 2026

 Foi nos lugares mais escuros que eu aprendi a enxergar sem ver.

Queria tanto eu ouvir sua voz outra vez e, 

ouvi mesmo por uma última vez, 

me pedindo ajuda…

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Corredor final

- Uma última refeição lhe será servida! - diz o algoz

- Não quero nada, obrigada. - respondo

- Faz parte do protocolo para que a sua morte seja com mais dignidade e respeito.

- Não tem nada de digno acontecendo aqui!

- Você foi julgada, sua sentença foi estabelecida legalmente.

- Por quem? Meus olhos estavam fechados e minha boca calada. Ouvi murmúrios e não pude me defender. Meu coração batia tão forte que poderia ser traduzido em palavras. Qual foi meu crime?

- Saiba que não preciso e nem vou falar disso agora com você. Só queria saber o que você quer comer no jantar.

- Pode me dar absinto?

- Não.

- Um prato de macarrão preparado pela minha avó, é possível?

- Tudo bem. Onde eu a encontro?

- Cemitério da Misericórdia.

- Que deboche! Então, passe fome. Ingrata! Estou aqui te oferecendo uma oportunidade para comer o que quiser e você me vem com essa… 

- Qual o seu problema? Estou sendo ingrata porque você está me oferencendo um prato de comida antes de me matar?

- Não é qualquer comida. Você poderia escolher e eu traria pra você. Mas você não tem consideração.

- Eu já me cansei. Pode me matar agora mesmo!

- Calma! Já escolheu o que vai querer jantar?

- Você não me ouviu. Não quero.

- Eu preciso que você queira e sua morte vai pesar menos para mim e eu poderei ir jantar tranquilo com minhas filhas e minha esposa.

- Não quero.

- Eu tentei! Vocês viram, hein? Pode executar. Será que demora muito? Já está quase na hora de eu bater meu ponto…

- Me concede uma última palavra?

- Tá bem, vai! Fala.

 - Obrigada por me fazer enxergar o quanto eu já estava me matando, quando me calei, quando me resignei, quando fechei os olhos para mim. Só agora, tão perto da morte, é que percebo o quanto eu queria viver. Eu não sou ingrata, eu sou apenas alguém desesperada que percebeu que não tem saída e que um prato da mais deliciosa comida não vai fazer diferença.

- Ah sim, ok.



Enquanto de um lado alguém está morrendo, do outro lado tem alguém seguindo protocolo e nadando em indiferença.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A pior parte dessa viagem sozinha, tem sido conversar comigo mesma e, ainda assim, não me entender…

sábado, 17 de outubro de 2026

Eu criei duas caixinhas de memórias 

Uma para as boas lembranças 

Outra para as ruins

Uma pra revisitar e outra pra esquecer


Abri as duas caixinhas de lembranças 

Uma e boa e outra má 

Os começos e os fins

E até agora não sei onde eu coloco você.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Dentre as mil coisas que você fazia

Permaneceu o ler e o escrever 

Ler o mundo e escrever livros 

Ler livros e escrever mundos

sábado, 10 de outubro de 2026

Pisar conscientemente o chão da nostalgia nos leva aos lugares mais bonitos e tristes.

Uma saudade de um tempo bom e uma tristeza por não ter tido o discernimento para entender que se estava vivendo um tempo bom.

Bons tempos…

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O dia não tem sempre 24 horas

Às vezes, ele dura menos 

Às vezes, ele dura muito mais

E tem dia que o dia nunca termina.


Todas as minhas escolhas me trouxeram até aqui

Todas as batalhas que perdi, e as guerras que venci 

Todas as minhas escolhas me trouxeram até aqui

E tudo que eu mais quero agora é ir embora.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Hoje, ela que vive no silêncio, chamou por seu pai.

Eu disse que ela não estava sozinha.

Será que ela tem medo?

Porque eu… eu estou aterrorizada.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

- As palavras não precisam ser vomitadas assim. Por que você não digere antes e, depois fala tudo com calma?

- Eu não quero.

Lobo x Coruja

- Por que você se preocupa tanto em me conhecer, Cressida?

Eu já te disse que não tem nada aqui.

- Já tivemos essa conversa umas trinta vezes, Cassu… nem sempre é só sobre você, sabia? Tirar tempo para ficar com você, te conhecer, faz bem pra mim. É como você me faz sentir. Sua amizade importa pra mim…

- Ah… então, é um motivo meio egoísta, né?

-  Não, não vejo assim. Acho que é  porque me mantém curiosa e ativa. 

- Hum… Mas você não vai ficar com aquela ladainha de que tenho voltar pro bando…?

- Vou ficar em silêncio. 

- Você é a coruja mais estranha que eu já vi.

- E você é o lobo mais estranho que eu já vi.

- Ok, vamos almoçar. A comida tá esfriando.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Resolvi fazer um passeio pra dentro de mim 

Algo bem breve, não posso me demorar aqui

É muito escuro e fico com medo do que posso encontrar 

Mas tenho que ver com meus próprios olhos, se tudo ainda não desmoronou.

E, de tempos em tempo eu venho, observo e vou embora.

Não ouso mudar nada de lugar

Porque não vou me demorar.

Pronto. Já fiz a minha brevíssima inspeção.

Agora posso me concentrar no meu externo, na superfície; sabendo que no meu passeio para dentro de mim, as paredes ainda estão escoradas, e as lâmpadas mesmo fracas ainda piscam um restinho de eletricidade.

Ela não se mexe mais

Mas de tempos em tempos

Ergue um dos braços o mais alto que pode

Em direção aos céus

Pedindo que Deus a salve

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Noites em claro

Todas as noites que passei em claro 

Acordada, esperando uma resposta, um sinal

Foram longas demais

O sol logo derreteria a lua e o negro se transformaria num rosa alaranjado quente 

Aguardei a mão que me puxaria para fora desse buraco escuro demais

E amanheceu.


Todas as noites que passei em claro

Acordada, pedindo ajuda, com minha alma queimando

Aterrorizada, me sentindo perdida

Andando em círculos e ouvindo uivos distantes

Esperei um tempo, esperei dois. Esperei mais.

E amanheceu.


Todas as noites que passei em claro na floresta úmida 

Com o cheiro de lama podre na sola das minhas botas

Petrificada aguardando um retorno incerto

De uma viagem que eu não queria ter feito.

Esperei por um salvador, que não veio

E amanheceu.


Todas as noites que passei em claro

Foram em algum momento o prelúdio que a dor e a escuridão iriam me alcançar 

Mais cedo ou mais tarde

E me obriguei a ouvir com meus dois ouvidos

E com minha intuição.

Foi mais uma inspiração longa demais.

E amanheceu.

 

Todas as noite que passei em claro, foram habitadas por monstros e medos, pedidos sem respostas.


Todas noites que passei em claro, passaram.